Um príncipe da guitarra clássica em Monserrate

Sintra é, sem dúvida, um dos grandes ex-libris de Portugal e os

jardins de Monserrate, com as suas árvores centenárias, as plantas e

as flores exóticas, e o seu palácio, constituem o ponto máximo

daqueles que fazem do romantismo uma filosofia de vida. Se misturarmos

tudo isto com música de grande qualidade, celebrada com requinte,

então encontramos o sonho perfeito tornado realidade, quando os seus

intérpretes nos levam ou elevam ao céu, através de sons que só os

anjos sabem proporcionar.

O Grupo de Amigos de Monserrate tem conseguido ao longo dos últimos

anos preservar aquele espaço de beleza natural, sobretudo quando é

visitado por músicos de grande qualidade e talento, como sucedeu em 18

deste mês com Silvestre Fonseca, o expoente máximo da guitarra

clássica em Portugal, só comparável ao virtuosismo de Custódio Castelo

e de Ricardo Rocha na guitarra portuguesa.

A forma como o músico aborda o seu repertório, didática e cultura

clássica de Conservatório, a subtileza das palavras cheias de graça

com que comunica com o público e a suavidade quando toca nos bordões,

são sinónimo de que estamos perante um ser criativo perfeito, que

consegue deixar-nos autênticos perfumes no ar com o cântico da sua

guitarra.

E foi assim, no espaço de uma hora e tal de concerto. Tocou uma

peregrinação pelo mundo, de que só Fernão Mendes Pinto ou Marco Polo

poderiam conseguir, forma sublime de o apresentar e de dar a entender

que viajámos por todos os oceanos, num embalar de criança que a faz

sonhar. Passou por uma valsa de Viena dançada junto ao Sena, composta

aos 15 anos . Abordou a morna que nos fez recordar Cesária Évora no

seu melhor, fez da guitarra clássica sons renascentistas, ou melhor

ainda, o homem dos sete instrumentos, seja a pandeireta que conduz a

marcha militar com cornetim, a filarmónica que acompanha a procissão

da Senhora da Saúde, os tambores de S. Gonçalo, ou seja a viagem de

África ao Oriente em minutos de concerto, passando um "doble" do nosso

Património Cultural da Humanidade, com o "Fado do Ciúme" e "De quem eu

Gosto", até parecendo que Amália estava ali.

Ultimamente tem convidado a soprano do Fado Margarida Soeiro para o

acompanhar e desse conjunto ambos têm beneficiado, tal como o público,

pois se Margarida canta com mais encanto, Silvestre encanta na sua

arte. A "Rua do Capelão" ou "Fado da Severa", estilizados e uma noite

de Verão, à beira de um lago em que a Lua se projecta em amores

apetecidos, o "Summer Time" recriado, as cordas quentes e lentas da

guitarra associadas à voz pausada e doce da cantora, foram o culminar

de uma tarde de Outono que ficará para sempre gravada no palácio de

rara beleza.

O próximo dia 10 de Dezembro, agora acompanhado de orquestra sinfónica

no Casino do Estoril, dir-nos-á que Silvestre Fonseca merece um lugar

no "podium" onde só os excelentes instrumentistas merecem ficar. Temos

a certeza de que será um grande privilégio para quem quiser ficar com

a saudade e o desejo de o ouvir muitas mais vezes.

 

António Manuel de Moraes