Contado pelos Poetas -Poemas enviados por Manuela Tuna

Deixa-me ouvir o que não oiço...

Não é a brisa ou o arvoredo;

É outra coisa intercalada...

       É qualquer coisa que não posso

       Ouvir senão em segredo,

       E o que talvez não seja nada...

 

Deixa-me ouvir... Não fales alto!

Um momento!... Depois o amor,

Se quiseres...Agora cala!

       Ténue, longínquo sobressalto

       Que substitui a dor,

       Que inquieta e embala...

 

O quê? Só a brisa entre a folhagem?

Talvez...Só um canto pressentido?

Não sei, mas custa amar depois...

Sim, torna a mim, e a paisagem

 

De: Fernado Pessoa em "Poesias Inéditas".

 

Não quero mais que um som de água

Ao pé de um adormecer.

Trago sonho, trago mágoa,

Trago com quem não querer.

 

Como nada amei nem fiz

Quero descansar de nada.

Amanhã serei feliz

Se para amanhã há estrada.

 

Por enquanto, na estalagem

De não ter cura de mim,

Gozarei só pela aragem

As flores do outro jardim.

 

Por enquanto, por enquanto,

Por enquanto não sei o quê...

Pobre alma, choras sem pranto,

E ouves como quem vê.

 

De: Fernado Pessoa em "Poesias Inéditas".