"As Claras Madrugadas", Amadeu Lopes Sabino

Em "As Claras Madrugadas", uma biografia ficcionada, o autor leva-nos a conhecer a vida de Michel Lidzki, o "pseudo-padrasto" do advogado belga Baudouin Dunesme. O livro presta quase uma homenagem, uma revisitação da vida de uma figura que poderia ter sido paternal, e, ao mesmo tempo, aborda o desenvolvimento político de Baudouin, enquanto contrapõe as ideologias de ambos. Ao mesmo tempo, o passado e o presente cruzam-se, enquanto o autor procede às investigações necessárias para descrever as vivências dos dois homens, o que também nos leva a pensar na forma como os locais se alteram em poucas décadas. 

O estilo de escrita é quase jornalístico e apesar das passagens mais "ficcionais", como o autor as explica, quando necessita de recorrer à imaginação, é bom sentirmos que estamos a ler "factos". E percebermos a mentalidade das pessoas ao longo das décadas referidas.

Conhecemos assim Michel, um "homem comum". Era judeu, nascido em Novogrudok, localidade hoje bielorrussa (mas no passado lituana e polaca), mas que a pouco se tornou um homem quase sem pátria e sem religião. Seguiu o sonho de ser dentista ao deixar a localidade natal e quando as forças de Hitler se alastram pela Europa conseguiu atravessar o Atlântico - com parte da ajuda do "nosso" Aristides de Sousa Mendes. Enquanto conhecemos a jornada de Michel percebemos que praticamente não se identifica como judeu. Bem pelo contrário, parece defender uma integração discreta na sociedade, sem especificar a religião (ou cultura?) que nem sequer pratica. Pretende ser apenas mais um homem, apesar do contexto que o rodeia. Por outro lado, o filho da companheira que vai encontrar em Bruxelas, Baudouin, é um revoltado durante a juventude, afiliado em forças políticas de esquerda, e movido pela vontade de fazer justiça contra o imperialismo, se necessário, até pelas armas, e chega a ingressar num campo de treino militar palestiniano. São dois inconformistas à sua maneira, pois se Michel, ao contrário do resto da família, se mostra aos outros indiferente aos rumos que o Mundo toma, o "enteado" parece ter tendência em "remar contra a maré".

"As Claras Madrugadas" - a luminosidade da paz? - promoveu-me uma leitura desafiante. Foca muitos aspectos políticos, e mantém presente muita terminologia da área, o que não tornou a leitura "leve", mas manteve-me bem atenta e cheguei ao fim com a sensação de que tinha acabado de ler algo com conteúdo, o que é compensador. O livro deixou-me a pensar em questões como a criação do Estado de Israel, um tema muitas vezes abordado ao longo da narração, pela forma polémica como os habitantes palestinianos foram afastados do território.

Sobre o livro, ainda tenho que partilhar convosco que gostei muitos das passagens em Portugal, durante a II Guerra Mundial, quando os refugiados chegavam ao nosso país para partir para outras paragens, e na época revolucionária do pós-25 de Abril, durante a organização de comunas. Mostrou-se uma boa forma de espreitar o ambiente que se vivia nesses tempos, através dos olhos de Michel e Boudouin.

 

E vocês, já leram este livro? Qual é a vossa opinião?

Boas leituras!

 

Nota:

"As Claras Madrugadas" foi o primeiro livro cedido pela parceira Editorial Bizâncio para análise. Tenho de agradecer, mais uma vez, a confiança depositada pela editora no blog VOYAGE.